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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 57 - Dons apostólicos: arrogância e soberba espiritual denunciadas por Paulo



Por Jorge Fernandes Isah


Nas aulas anteriores, vimos que os dons espetaculares ou apostólicos ou da segunda-bênção ou miraculosos foram específicos e circunscritos a um determinado momento histórico, o período da Igreja Primitiva, e tinha por objetivo revelar a Pessoa do Senhor Jesus, sua obra, ressurreição e "validar" a mensagem e o ministério apostólico, e, por fim, sancionar o cânon, a Escritura Sagrada, que ainda não estava concluída, do ponto de vista formal.

Analisamos que a ideia de um "segundo batismo" do Espírito Santo se baseia em um texto que nada tem a ver com isso, o qual é Mateus 3:11, e que para se crer em um "batismo de fogo" como os pentecostais e carismáticos estão convencidos, é preciso fazer-se uma ginástica e tanto, um malabarismo, forçando e excluindo o contexto dos 10 versos anteriores para se concluir que João, o Batista, está a falar de outro batismo no Espírito Santo.

Estudamos também que eles eram sinais, e os sinais não têm função quando a realidade se apresenta completamente. Eles são indicativos, que apontam para uma realidade, mas quando esta se apresenta acabada, plena, não há necessidade deles. Como disse, na aula passada, fazendo uma analogia, se vou a primeira vez a um consultório médico me guiarei pelas placas das ruas e a numeração dos edifícios. Ainda, no prédio, me guiarei pela sinalização dos andares e salas. Encontrado o consultório, eles não mais são necessários. Assim são os sinais espetaculares, eles apontam para Cristo, obra, mensagem e mistério, e, por fim, para a Bíblia, como palavra infalível, inerrante e divinamente inspirada de Deus. Eles foram também usados para revelar o novo Pacto, ou Aliança de Deus, não somente aos judeus, mas aos samaritanos e gentios, de forma que a mensagem do Evangelho estava, naquele momento, disponível a todos os homens de todas as nações e não era mais algo exclusivo do povo de Israel. Logo, esses sinais não são mais necessários, pois toda a revelação está pronta e acabada e, como advertência da própria Escritura, aí de quem tirar ou incluir uma palavra que seja [Ap 22.18-19].


Na pregação do último domingo, o Pr. Luiz Carlos, dando continuidade ao estudo do livro de Atos 19:2-7, abordou também a questão dos dons sobrenaturais, clarificando e trazendo novos elementos para o entendimento de que esses dons foram restritos àquele período e não mais são necessários atualmente.

Por isso, vamos proceder a um estudo dos capítulos 12, 13 e 14 de 1 Coríntios, onde Paulo fala acerca dos dons espirituais. E entenderemos a motivação que levou o apóstolo a escrever aos Coríntios sobre a necessidade que eles tinham de compreender, e não manterem-se ignorantes, quanto à função e ação dos dons na igreja.

Primeiramente, ele alerta para o desconhecimento, da igreja de Corinto, quanto ao uso dos dons espirituais. Ao dizer não querer que os irmãos sejam ignorantes, ele acusou-os de não terem o conhecimento adequado no uso dos dons, e de que a forma como o faziam não era correta. Já, no início, Paulo os chama a humildade, revelando que eram gentios, não incluídos inicialmente no Pacto, e guiados aos ídolos mudos [v.2]. Provavelmente, eles se sentiam, de alguma maneira, superiores e, talvez, até mesmo sobre os judeus, por causa dos dons, ou sobre aqueles que não tinham esses dons, e o apóstolo trata de mostrar-lhes o que eram, como viviam, e de que agora suas vidas eram outras, transformadas pelo poder de Cristo e pela mensagem do Evangelho, não podendo então se entregarem ao pecado da arrogância e superioridade espiritual. Não vejo outro motivo para Paulo deixar tão clara a condição na qual os coríntios haviam vivido a maior parte de suas vidas, e de que, agora, chamados ao Cristianismo, se exaltariam, fazendo-se superiores, por causa dos dons que Deus lhes entregara e que era para benefício de toda a igreja, e não para a vaidade e glória pessoais.

Por isso, ele alerta sobre a necessidade deles compreenderem e entenderem que "ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo" [v.3]. É possível que eles desprezassem irmãos que reconheciam Cristo como Senhor, mas não exerciam nenhum dom sobrenatural.

Então, ele fala da diversidade de dons, em que Deus os distribuiu generosamente à igreja, contudo, um só era o o Espírito que os distribuía [v.4]. Paulo está a dizer que nenhum dom é superior ao outro, no sentido de que um deles é "menos" de Deus que o outro, ou o outro é "mais" de Deus do que o primeiro. Paulo percebeu uma certa vaidade nos irmãos que, tal qual acontecera com eles em relação ao apóstolo, Apolo, Pedro e Jesus, provavelmente se vangloriavam do dom que tinham, desprezando o dom alheio. Assim, aquele que falava em línguas se considerava maior, mais espiritual, e o que falava duas ou três línguas se considerava ainda maior e mais espiritual. O que Paulo está dizendo à igreja é que todos os dons são iguais, desde que para a edificação da igreja, e todos procedem do mesmo Deus; de forma que aquele que não tem um dom espetacular, por exemplo, falar em línguas ou profetizar, é também movido pelo Espírito, o qual o usa como e quando quer, operando tudo em todos, de forma que a manifestação é dada a cada um, para o que for útil [v.4-7].

Um parênteses: a forma de que Paulo se utiliza nos versos 4-6, falando que o Espírito é o mesmo, O Senhor é o mesmo, e Deus opera tudo em todos, dá a medida de unidade e diversidade, tanto na Trindade, como no Corpo de Cristo. De forma que temos personalidades distintas, o Espírito Santo, Cristo e o Pai mas que são um. Assim também é a igreja, onde há muitos membros, e muitos dons distribuídos a esses membros, mas um só corpo. E a esta unidade diversa, ou diversidade unitária, que muitas vezes é tão enigmática, de difícil compreensão, que não devemos esquecer, e lembrarmo-nos de que sem a cabeça, Cristo, o corpo não sobreviveria; estamos unidos a ele, e é por ele que se manifesta cada um dos membros, segundo o poder divino de operar.

Muitos contemporâneos alegam que não crer nos dons sobrenaturais é o mesmo que limitar a Deus, e Deus não pode ser aprisionado. É verdade, mas lembremos que Deus é imutável, mas a imutabilidade divina não quer dizer que ele está estático, imóvel; pelo contrário, Deus está agindo neste momento em cada uma das menores partículas existentes no Cosmos, pois sem a sua ação, nem mesmo essas partículas, muitas invisíveis e desconhecidas ao homem, sobreviveria. Portanto, Deus é um agente ativo em toda a sua obra, contudo, penso que devolver a pergunta ao inquiridor o deixaria também em situação desconfortável, pois, o fato de confundir imutabilidade com inoperância, não pode significar que ao não "remover" certos fatos e acontecimentos como as pragas do Egito operadas através de Moisés, o milagre de multiplicar azeite e pão através de Elias, o Sol parar e o abrir do Jordão através de Eliseu, fatos  que não mais aconteceram e que não se mantiveram nos dias atuais, não seria o mesmo que engessá-lo? Ou seja, por que Deus não opera mais milagres e feitos como esses? Estaríamos acusando-o de estaticidade? E, se esses milagres não persistiram, no decorrer da história, por que os feitos dos apóstolos persistiriam? A resposta é simples, Deus tem um propósito para todas as coisas, e cada uma delas acontecerá dentro do propósito divino. A continuidade dos dons sobrenaturais após o séc. I é algo que não tem propósito, pois o poder de Deus se manifesta de maneira diferente, através da proclamação do Evangelho de Cristo pela igreja, pela reverência e obediência à sua santa palavra. Os mesmos motivos que justificariam, ao ver dos pentecostais e carismáticos, a atualidade dos dons apostólicos, têm de ser também para corroborar que o Sol pare, o Mar Vermelho se abra, e a água seja transformada em vinho. Do contrário, ambos não concorrem para o fim desejado, e são improcedentes.

Continuando, Paulo descreve os dons dados à igreja pelo Espírito Santo: 
1) Palavra de Sabedoria;
2) Palavra de Ciência;
3) Fé;
4) Dons de cura;
5) Operação de maravilhas;
6) Profecia;
7) Discernir espíritos;
8) Variedade de línguas;
9) Interpretação de línguas. 

Há ainda outras duas listas formuladas pelo apóstolo que são: 

- Em Romanos 12:6-8:
1) Profecia;
2) Ministério;
3) Ensino;
4) Exortação;
5) Repartir;
6) Presidir;
7) Misericórdia.

- Em Efésios 4:11:
1) Apóstolos;
2) Profetas;
3) Evangelistas;
4) Pastores
5) Doutores

Nestas listas, temos dons miraculosos ou extraordinários e dons que não são miraculosos ou ordinários. Elas têm o objetivo de mostrar que a lista de 1Coríntios não é a definitiva mas ilustrativa, sendo, ao meu ver, uma relação necessária e especifica para que os coríntios compreendessem que Deus age de muitas formas, e de que apenas uma forma, como eles supunham, não trazia a compreensão necessária acerca de como Deus se manifestava.

Portanto, entendamos o que sejam esses dons, mais detidamente, a partir da próxima aula.

Notas: 1- Aula realizada na EBD do Tabernáculo Batista Bíblico
2 - Para entender mais sobre o assunto, ouça e baixe o áudio em Aula 74 - Dons III.MP3

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