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Página de doutrina Batista-Calvinista. Cremos na inspiração divina, na inerrância e infalibilidade das Escrituras Sagradas; e de que Deus se manifestou em plenitude no seu Filho Amado Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, o qual é a Segunda Pessoa da Tri-unidade Santa
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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 28: A bondade de Deus, e o mal




Por Jorge Fernandes Isah


INTRODUÇÃO

Bondade é a disposição natural para o bem, a qualidade do que é bom. E apenas Deus tem essa disposição em sua natureza, de forma que ele é completamente bom, de maneira que Deus não pode ser mau ou deixar de ser bom. Ele é bom, porque em seu ser não há qualquer maldade; o atributo da bondade não pode ser alterado, seja para mais ou para menos, porque Deus é a perfeita, infinita e imutável bondade, ela tem de existir em Deus sem limites ou medidas. Nele há simples, uniforme e infinitamente todo o bem. Como o salmista diz: "A bondade de Deus permanece continuamente" [Sl 52.1]; a terra está cheia da sua bondade [Sl 33.5]; e ainda: "Porque o Senhor é bom, e eterna a sua misericórdia; e sua verdade dura de geração em geração" [Sl 100.5].

A bondade inclui a benevolência, o amor, a misericórdia e a graça. Ela está presente na forma como Deus sustenta toda a criação, sejam anjos, homens, animais e a natureza. Todo o universo é a prova categórica da sua bondade para com as suas criaturas. E ela se manifesta na sua providência, em que todas as suas obras louva-lo-ão, "e teus santos te bendirão" [Sl 145.10]. Assim, o salmista diz que Deus, em sua bondade, dá o mantimento a todos no seu devido tempo, implicando no sustento e preservação. É por isso que o Senhor diz: "Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta... Olhai os lírios do campo, como eles crescem, não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles" [Mt 6.26, 27]. E até mesmo o ímpio não está isento de receber as bênçãos divinas, através da sua providência: "Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos" [Mt 5.45].

Deus é bom, e somente ele é. Foi o que o Senhor Jesus disse ao jovem: "Por que me chamas bom? Ninguém há bom senão um, que é Deus" [Mc 10.18]. Não há o que seja contestado nas palavras de Cristo. Apenas Deus é bom. Os homens, por mais que sejam considerados bons, por mais que pratiquem a bondade, ela nada mais é do que uma ínfima e quase indelével amostra da bondade divina. Se temos algo de bom em nós, ele provém de Deus, o qual somos a imagem e semelhança, que, por causa da Queda, tornou essa imagem em quase um espectro indistinguível e indefinível. O pecado nos arrasta para uma condição oposta à bondade; ele nos faz trilhar o caminho mal, que é a antítese do caminho de vida, o qual Deus nos deu a conhecer na pessoa do seu Filho Amado. O pecado nos faz transitar na morte, na dor, no sofrimento, da amargura, mas, sobretudo, no caminhos erráticos da rebeldia e descrença. Dizer que o sofrimento e dor não decorre do pecado é querer tampar o Sol com a peneira. Mesmo que não seja por conta de um pecado individual e específico, elas são originariamente causadas por nossa natureza pecaminosa, pela Queda, pela quebra da ordem. Por isso, nenhum homem pode ser chamado de bom; nem mesmo o mais abnegado e dedicado homem a buscar a bondade. Aquele jovem rico não considerou o que dizia. Não ao chamar Jesus de bom, porque ele é bom, sendo o Deus encarnado. Mas em pedir algo que era incapaz de realizar. Ao perguntar: "Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?", ele demonstrou uma preocupação com a possibilidade de, por si mesmo, alcançar a salvação, ao mesmo tempo em que demonstrava desconhecer os reais significados tanto da sua condição como pecador, como da salvação e da impossibilidade do homem obtê-la por esforço próprio. A sua pergunta nem mesmo fazia jus à pessoa do Senhor Jesus. O seu pensamento estava errado em quase tudo que se relacionasse com a sua inquirição.

A alegada não divindade de Cristo, cogitada por muitos, a partir deste relato, é uma avaliação frágil e descuidada de quem a proferi. Cristo não disse que não era Deus, mas que apenas Deus era bom. Ele sabia que aquele rapaz não consideraria as suas palavras, logo, as desobedeceria, revelando a descrença em sua própria afirmação: "Bom Mestre". O seu erro foi querer algo que era-lhe impossível alcançar. Há, também, um certo ar de orgulho e soberba na sua pergunta: "que farei para herdar a vida eterna?". Sabemos que o homem nada pode fazer para mudar a sua condição de perdição. Como o Senhor disse aos apóstolos, um pouco à frente, a salvação para os homens é impossível, mas não para Deus, pois para Deus tudo é possível [v.27]. Esse jovem considerou de maneira errada que era capaz de obter a vida eterna. Mas ela estava muito distante do seu alcance. Apenas Cristo, o Bom Mestre e Pastor, poderia fazê-lo por ele.

E então, entra-se na questão da divindade de Cristo. Se Cristo não é Deus, como o homem pode ser salvo? A suposição é de que ele não se considera Deus ao afirmar que apenas Deus é bom. Mas é possível ler isso nas entrelinhas? Não. Essa é uma inferência completamente despropositada e equivocada. Pois, que diferença há entre o "Bom Mestre" proferido pelo rapaz, e a autoproclamação do Senhor em João 10.11? Ali ele chama a si mesmo de o "Bom Pastor". Com todas as letras ele diz: "Eu sou o bom Pastor" [numa referência clara ao Salmo 23, onde Deus é o "Bom Pastor"]. O que torna uma afirmação diferente da outra? Há diferença entre os dois "bons"? Não. Se Cristo é o bom Pastor, segue-se que ele é bom, por isso, Deus. Discutir a divindade de Cristo a partir da sua resposta ao jovem rico é impossível. Assim como é impossível questioná-la à luz da Escritura. O certo é que Deus é bom em sua unidade, mas na diversidade pessoal do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 


A BONDADE DE DEUS, E O MAL

A bondade está refletida na criação, a qual Deus considerou muito boa [Gn 1.31]. É claro que não podemos dar o sentido de "muito bom" à criação significando cada item dela como bom. O ato divino de criar e de fazer todas as coisas é que me parece "muito bom"; creio que ela está mais ligada ao fato de o Senhor ter se agradado por cumprir aquilo que imaginou e determinou criar. É possível mesmo divagar um pouco e acrescentar que, em vista do decreto eterno, a criação foi o cumprimento bom, correto, apropriado, daquilo que Deus estabelecera eternamente em seu plano. Creio não ser um disparate afirmar que a execução do plano divino na obra de criação é que ele considerou boa. Já que ele, como o Ser supremo e perfeito, não poderia jamais criar algo ruim em conformidade com o seu projeto perfeito. E isso não tem nada a ver com a perfeição da criação, a qual muitos teólogos se referem. Se Deus criasse algo perfeito, do ponto de vista metafísico, estaria se autocriando, o que é impossível; visto ser Deus eterno, não haveria como criar a perfeição. O que temos é a assertiva do Senhor em se agradar com a sua obra, de executá-la perfeitamente em conformidade com o seu decreto e vontade. E, certamente, como a Bíblia nos revela, os planos do Senhor incluíam tanto o mal como as coisas ruins, sem que elas procedessem dele, fossem causadas por ele. O mal é sempre causado pela deficiência do agente, de forma que os anjos ou os homens caídos realizam o mal por haver em suas naturezas uma deficiência que os inclina a praticá-los. E essa inclinação é decorrente da natureza pecaminosa, que contaminou a todos, sem exceção, a partir da queda de Adão no Éden. O mal, portanto, procede dessa deficiência natural do homem [que já estava presente em Adão, senão ele não pecaria], mas de forma alguma está presente em Deus, porque ele é o ser supremo, como Tomás de Aquino dizia: Deus é o Bem Supremo ou Sumo Bem, onde não há imperfeição ou falta alguma, pois ele é, também, a suprema perfeição.

De certa forma, o mal metafísico está presente na criação. As imperfeições quanto aos seres pode-se ser percebida em relação a Deus, o ser perfeito. O homem, por exemplo, existe, vive, age e pensa. Uma pedra apenas existe, não vive, não age nem pensa. Nós, como seres criados à imagem e semelhança de Deus não atingimos a perfeição divina, o que é impossível, mas na escala da criação estamos mais próximos da sua perfeição; e, em relação às demais criaturas, somos mais perfeitos. Nesse sentido, tudo o que se aproxima mais do ser de Deus é "mais perfeito"; e também nesse sentido podemos dizer que Deus é o autor ou a causa do mal, mas do mal metafísico.

Acontece que o mal moral é aquele que tem de ser punido. E, nesse sentido, apenas os anjos e homens podem cometê-lo. E o que seria o mal moral? Ao meu ver, e em concordância com o que diz Agostinho, é a ausência do bem. Temos de entender que o pecado, em si mesmo, exercer uma desordem na natureza humana, resultando na supressão de todo o bem, impelindo-o às escolhas opostas e conflitantes com os preceitos divinos; o que o torna incapaz, por sua deficiência moral, de orientar-se na realização do propósito final de Deus: fazer o bem, ser bom. E ele, em conformidade com a sua natureza, ausente do bem, dispõem-se a realizar o mal.

Quando lemos Isaías 45.6-7, temos de entender que aquele mal ao qual o Senhor se refere não é outro senão a aplicação da sua Justiça, a sua ira, punindo o infrator pela transgressão, pelo pecado cometido contra o Deus santo e reto. Pois sendo Deus necessária e essencialmente bom, é impossível que ele faça o mal.

Alguns dirão que Deus não é bom porque há pessoas com fome, sede, sem vestimenta... crianças nascem mortas ou falecem prematuramente... e de que, em suma, há muita injustiça no mundo. Então, num mundo onde há dor, sofrimento, morte e injustiça, não é possível que ele seja governado por um Deus bom. Mas, pergunto, o que tem a ver as tragédias e dores do mundo com Deus? Não seria essa a culpa do próprio homem? Que ao se entregar ao pecado causou o caos e a degeneração na ordem de forma que houvesse a desordem? E essa desordem não trouxe somente a morte espiritual, mas a morte física, ou seja, a desordem que nos fez perder as qualidades da imortalidade, mas sobretudo, a boa disposição de todas as coisas, a harmonia em toda a criação, para sucumbir à confusão, o desalinho e a anormalidade? E não foram elas que culminaram nas doenças, limitações e fragilidade do corpo? Mas não somente do nosso corpo, mas de toda a estrutura do universo? Porque Deus é acusado do mal praticado por nós? Não é o que Paulo nos diz em Romanos 8.19-22, que a culpa do caos é do homem? De que toda a criação, sujeita à vaidade do homem, geme com dores de parto até agora, esperando que a criatura seja libertada da corrupção, "para a liberdade da glória dos filhos de Deus". Toda a criação espera a manifestação dos filhos de Deus, para se ver também livre da corrupção e da degeneração. Deus criou todas as coisas em ordem, o pecado levou-as à desordem, e ele está executando o seu plano para devolver novamente tudo à ordem. Por que então ele já não fez isso de uma vez?, pode dizer alguém. Ora, porque ele é Deus, e executará o seu plano segundo a sua vontade e no devido tempo estabelecido por ele. Nem antes, nem depois, mas no momento exato.

É claro que temos um aliado sinistro na obra de manter a desordem no cosmos: o diabo. Dizer que a sua participação não é efetiva no conjunto da obra que o homem realiza, e de que há uma conjunção de forças para perpetrar essa situação, ainda que o diabo nos veja como um inimigo desprezível e odioso, o seu próprio desejo de nos destruir e a toda obra divina, representa o caos do qual ele não consegue se livrar, sendo ele a causa da sua justa condenação e precipitação no inferno, criado para ele e seus anjos, e de onde jamais sairá depois do Juízo, onde estará em sofrimento eterno.

Mais alguém pode se levantar e dizer que a própria ideia de "sofrimento eterno" imposto por Deus aos rebeldes é prova de que ele não é bom. Mas essa pessoa se engana quanto à natureza divina, que também é santa e justa. Um mundo onde não há a punição para o pecado, o delito e a rebelião, seria um mundo injusto, como o que vivemos. Porém, Deus não o criou assim. E, no seu decreto, caberá a ele estabelecer novamente a ordem, aplicando a sua santa justiça e ira sobre os irregenerados. Deus, em sua perfeição, não pode abrir mão da justiça em prol do infrator. Como Justo Juiz cabe aplicar a pena sobre ele. Ainda pode-se dizer que a justiça de Deus é má, pois inflige dor e sofrimento. Contudo, ele alertou o homem das consequências da sua desobediência: "Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" [Gn 2.17]. E elas vieram como resultado da transgressão, do homem considerar imprudentemente que a sua vontade era superior à vontade de Deus, dele desconsiderar a verdade, e relativizá-la como algo possível de se fazer mantendo-se em seu estado original. Mas veio a queda, e com ela a desordem e a degeneração, e as consequências estão aí para todos vermos. Por mais que o homem descubra as curas para velhas doenças, muitas delas persistem matando [pois até mesmo o remédio não é eficiente para todos], enquanto novas surgem, manifestando que o homem é incapaz de trazer à ordem as coisas, antes ele é a causa, pelo seu pecado, do caos quase absoluto. Com isso temos que o homem não é bom em sua essência, ainda que ele reflita-a parcial e esporadicamente, como fruto do "Imago Dei", das frações da bondade divina que nos foi comunicada.

Notas: 1- Textos bíblicos analisados em áudio: Mt 6.26-27 e Rm 8.18-23.
Aula realizada na EBD em 06.05.2012;
2- Baixe esta aula em file.MP3

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