segunda-feira, 28 de novembro de 2011
sábado, 26 de novembro de 2011
Estudo sobre a Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 8: Autoridade da Escritura

Por Jorge Fernandes Isah
10. O juiz supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas devem ser resolvidas e todos os decretos e concílios, todas as opiniões de escritores antigos e doutrinas de homens devem ser examinadas, e os espíritos provados, não pode ser outro senão a Sagrada Escritura entregue pelo Espírito Santo. Nossa fé recorrerá à Escritura para a decisão final.21
21 Mateus 22:29,31-32; Efésios 2:20; Atos 28:23.INTRODUÇÃO
Basicamente, temos no item 10 um resumo de toda a doutrina das Sagradas Escrituras, a qual foi estudada até o presente momento. De forma que a tendência geral entre os cristãos [e o que dirá entre os incrédulos] de limitar a autoridade e atuação da Bíblia encontra-se na classificação de soberba e arrogância intelectual do homem. Afinal de contas, pergunto: quem pode se autoinvestir ou receber a investidura de juiz da Escritura? A ponto de demarcar ou estabelecer os limites de sua autoridade e o campo de sua atuação como palavra de Deus? Ora, o que temos é uma tentativa humana de se colocar em uma categoria superior, em uma posição que jamais lhe foi dada e que ele tenta usurpar em seu constante desejo de subverter a ordem e estabelecer o reino do caos, onde os princípios podem ser subjetivados ao bel-prazer individual.
Como já disse, isso tem nome: pecado! E tentar desculpar-se com qualquer pretexto, seja o da tradição eclesiástica, da autoridade acadêmica e científica, da contextualização, ou da sua expressão como ideia restritivamente pessoal [subjetivação] não passará de velhacaria, de se autoenganar e não reconhecer a verdade.
Muitos perguntarão: qual verdade? E a própria pergunta é sofismática, uma armadilha, um raciocínio capcioso em que o perguntador já se encontra preso ao embuste e sem vontade de se libertar, pelo contrário, quer perpetuá-lo na mente alheia, e torná-la tal qual a sua uma escrava da aparente verdade. Para ele, não há a verdade, além da própria verdade: não há verdade! A sua mente diz haver algo, enquanto a sua boca diz não haver. É um blefe no qual não se tem a noção do que é real e irreal, apenas um conceito infundado e repetido exaustivamente até se estabelecer como crença na mente supersticiosa, da mesma forma que um jogador acredita possível tirar uma carta inexistente da manga salvadora, mas o jogo já está perdido na ilusão de que a sua autocontradição e incoerência também não sejam verdadeiras.
Para nós há apenas uma verdade: Deus e sua palavra, de forma que não é possível Deus se desvincular da sua palavra, nem ela se dissociar dele. Há uma unidade, uma coesão, somente possível através da perfeição, da santidade, eternidade e poder que existem entre neles. A autoridade da Escritura não deriva do homem, nem de nenhum elemento da criação, pois ela não é temporal, nem pode ser enquadrada nos aspectos da criação.
O ato de se transmiti-la, pela inspiração dos autores secundários, pela narrativa desses autores, pelo forma de participá-la aos homens, seja oral ou escrita, é algo mediático, que se transpõe no tempo, em formas humanas de comunicação, mas nada pode nos levar a crer que ela se originou pelos meios, pois eles são exatamente isso: formas pelas quais a mensagem divina se fez conhecida dos homens.
A palavra é eterna, como a Bíblia o afirma categoricamente. A palavra é a construção na mente de Deus; de maneira que assim é-se possível conhecê-lo e à sua vontade. Se desta forma ela não fosse, como alguém poderia dizer que conhece a Deus? E conhece a sua vontade? Baseado em quê? Por isso, qualquer afirmação que tenha o objetivo de diminuir ou limitar a autoridade da Escritura, anulará fatalmente o conhecimento de Deus, revelando a completa ignorância do homem diante do Ser, o que é a criação, e qual a obra o Senhor veio realizar. A descrença na Escritura levará à descrença em Deus e à criação de ídolos, na forma de deuses à imagem e semelhança do homem.
A AUTORIDADE DA ESCRITURA
Portanto, a autoridade da Escritura não tem como base o homem ou os meios pelos quais ela se transmite, mas encontra-se centrada na sua autoria divina. Em outras palavras, a Bíblia é autoritativa porque ela tem como autor primário o Espírito Santo, não sendo produto humano. O problema é que em muitos segmentos cristãos, mesmo entre pretensos ortodoxos, reformados e cristãos bíblicos, existe a falsa ideia de que a Escritura não é a verdade, mas ela contém a verdade, ou seja, é o meio pelo qual "alguma" verdade é transmitida ao homem.
Na maioria das conversas com "cristãos" o que mais se encontram são pessoas negando a veracidade dos fatos relatados na Bíblia; a negação da sua mensagem assim como Deus nos entregou; e mesmo a supressão de trechos inteiros, de passagens inteiras, de livros inteiros e até de testamentos inteiros como consequência da rejeição humana à verdade. E isso, já vimos, é heresia, e não é algo novo, mas se repete insistentemente desde o princípio, quando Adão rejeitou a verdade e abraçou o pecado, dando as costas para a revelação divina e, por conseguinte, dando as costas para si mesmo e a vida. O resultado foi a morte, em todos os sentidos. Exatamente por termos um espírito demasiadamente arraigado e preso à natureza decaída, recusamos e desprezamos a verdade, por ela ser impossível de se conciliar com a mentira que anelamos cuidadosamente em nós. Então, tomamos a verdade como mentira, e a mentira com verdade, numa inversão que remete à advertência divina, dado pela boca do profeta: "Ai dos que ao mal chama bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo! Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!" [Is 5.20-21]. Creio que podemos chamar esse estado de esquizofrenia, de forma que o homem agindo assim rompe completamente com a realidade e a verdade, apegando-se à fantasia, ao delírio e à mentira, ainda que ele esteja convencido de que "sente" e faz o que é certo, produzindo, contudo, o dano, o erro, a destruição, seja pessoal ou alheia.
Temos também que a soberba, o parecer sábio aos próprios olhos e prudente diante de si mesmo, é um estado de superioridade fictícia, quando o homem se estabelece no abismo mais profundo, nos degraus mais abissais da existência e da consciência [ou da não-consciência], e a cegueira espiritual o impede de ver a sua real situação de degradação, de debilidade, de corrupção; e ao fazê-lo, estabelece a própria sentença de morte. Na verdade ele já está morto, mas insiste em brincar de vivo, quando o cadáver nem mesmo pode imaginar o que venha a ser uma brincadeira.
Essa ideia nefasta e diabólica de que a Escritura pode ter partes verdadeiras, mas que no seu todo apenas a mensagem salvífica é a verdade, revela apenas mais um dos sintomas do soberbo e pretenso superior: a arbitrariedade de dizer o que é e o que não; a arbitrariedade de se fazer de autoridade espiritual sendo que apenas o Espírito é a autoridade, e os que não o tem, não passam de impostores, charlatões e usurpadores.
Quando alguém diz: "os fatos relatados na Escritura não são a verdade, pois não podem ser provados historicamente, e há erros crassos do ponto de vista científico, que podem ser provados pela experimentação, e apenas a mensagem de salvação é verdadeira, o resto deve ser desconsiderado.", o que se pode dizer? Converta-se, meu irmão! Pois ainda que a fé na autoridade da Escritura seja algo subjetivo, a Escritura é objetiva, assim como o agir do Espírito Santo na mente levando-a a crer, também. O que me leva a pensar que até mesmo a fé é algo completamente objetivo, pois está sob o efeito objetivo do Espírito de Deus. E é confirmado a partir do instante em que o mesmo Espírito começa a pavimentar a mente do homem regenerado, revelando-lhe a eficácia e unidade extraordinárias da Bíblia. A isso chamamos de testemunho interno, o Espírito testifica que somos filhos de Deus, de forma que todos os que são guiados por ele são filhos de Deus [Rm 8.14-16]. Até mesmo para se reconhecer esta verdade é necessário se crer nela como verdade. Não uma verdade subjetiva, que pode ou não ser verdadeira dependendo de quem ou em que condições ela é proferida, mas como uma verdade objetiva e real a todos os que são filhos de Deus. E mesmo para os que não são, pois a verdade não é inclusiva, mas também exclusiva, no sentido de que o não preencher suas condições torna-o incompatível com a verdade.
Não há uma verdade que se torne verdadeira apenas por alcançar a minha mente e coração. Ela é verdadeira em si mesma, e objetiva em si mesma, se verdade for, pois não depende de mim, nem da minha compreensão ou aceitação; ela existe independente de se querê-la ou não, de se reconhecê-la ou não; o que se deve fazer é buscá-la, e quando encontrá-la, aceitá-la, e nunca rejeitá-la. O que se tem feito, e muitos e muitos cristãos estão envolvidos nessa aceitação, é o estabelecer um progressivo estado de incredulidade, de forma que nada seja verdadeiro, a menos que diga respeito exclusivamente ao indivíduo, e que ela pode mudar de pessoa para pessoa, como um camaleão muda de cor. Mas até mesmo o camaleão mutante não deixa de ser um camaleão, o fato dele mudar de cor é uma das características que o tornam e o qualificam como camaleão. O que o homem tem de entender é que o fato dele se agradar e se especializar na distorção, na inconsistência, na contradição, na mentira, no engano, apenas o tornam no que ele é: homem! Caído pelo pecado; entregue ao pecado; e pelo pecado morto para Deus. A incredulidade é fruto apenas da ignorância humana em relação a Deus. A incredulidade tem-se investido de autoridade; de um entre tantos artifícios que tentam colocar o homem na posição de "senhor de si mesmo" quando não passa de um ídolo, e ídolos são quebrados, espatifados e destruídos facilmente, pois não têm vida, em si mesmos não prestam para nada, mas servem por afastar o homem cada vez mais de Deus. E, mesmo não sendo nada, não representando nada, nem assim o homem é capaz de destruí-los, revelando o quanto somos ainda mais tolos e pretensiosos em alimentar o modo intenso em que nos deixamos perder por nossa fragilidade.
Para isso nos cercamos de todas as formas possíveis e impossíveis de subterfúgios para mantermo-nos intactos no autoengano; assim com Adão e Eva resistiram à verdade, ao preceito divino, e se apegaram fervorosamente à mentira, ao que os seus corações compungidos levaram-os a acreditar como verdadeiro, mesmo sabendo ser mentira, mas preferiram segui-la, ainda que reconhecendo trágicas as consequências. Adão e Eva pagaram para ver, como se diz, e muitos arriscam-se a pagar para ver, e verão!
O que existiu neles e existe hoje é uma obstinação ao pecado, de forma que a simples ideia da verdade e suas consequências dolorosas, muitas vezes faz com que o homem a busque na transgressão, como se ela fosse uma negação, ou melhor, a anulação de toda a realidade numa tentativa infrutífera de se criar uma suprarealidade a revelar apenas e tão somente a imperfeição, e a buscá-la ternazmente nos caminhos perversos; e assim ele é conhecido de Deus, e por ele desprezado. E o reino de Deus se tornará tão impossível para eles, quanto mais a Escritura não lhes for verdadeira. Desta forma, o pecado parece ser o ato desesperado do homem de aniquilar a verdade da sua própria condição, e ao fazê-lo, espera-se que a realidade se dissolva e em seu lugar surja um novo ente para tomar o lugar de Deus, e para satisfazer a necessidade que o homem tem de Deus, uma figura postiça que não o lembre quem é, o que é necessário fazer para não se sujeitar aos desígnios divinos.
CONCLUSÃO
A C.F.B. de 1689 nos diz, neste capítulo, resumidamente, o seguinte:
a) A Bíblia é a palavra imutável, inerrante, infalível e inspirada de Deus.
b) Deus é o autor primário da Escritura, a qual é a sua santa palavra.
c) Deus preservou a sua palavra de qualquer corrupção, tanto ontem, como hoje, como sempre preservará.
d) A Escritura é autoritativa em si mesma, não dependendo de qualquer autoridade exterior a ela, seja o da Igreja, de Concílios, ou da erudição e academicismo, muito menos da ciência em todas as suas formas.
e) A Escritura é autointerpretativa, ou seja, ela se autoexplica, claramente.
De forma geral, esses são os pontos principais abordados pela C.F.B de 1689 nesta seção, os quais cremos e defendemos como princípios fiéis à fé cristã.
Nota: Aula realizada na E.B.D. em 13.11.2011
sábado, 19 de novembro de 2011
Confissão de Fé Batista de 1689 - Aula 7: Interpretação da Escritura

Por Jorge Fernandes Isah
9. A regra infalível de interpretação das Escrituras é a própria Escritura. Portanto, sempre que houver dúvida quanto ao verdadeiro e pleno sentido de qualquer passagem (sentido este que não é múltiplo, mas um único), essa passagem deve ser examinada em confrontação com outras passagens, que falem mais claramente.20
20 II Pedro 1:20-21; Atos 15:15-16
Primeiro, definamos o significado de interpretar, cuja origem vem do latim "interpretari", o qual quer dizer aclarar, explicar ou dar o sentido a algo, no nosso caso, ao texto bíblico. Então, de certa forma, todos nós somos interpretes, aqueles que, através da leitura do texto sagrado, apreenderão o seu significado, a sua mensagem. Como já foi dito, temos de ter o cuidado de não reescrever o texto, dando-lhe um sentido que Deus não quis dar. Isso acontece comumente por causa das nossas limitações, mas ainda mais habitualmente [o que não quer dizer que seja uma prática normal, correta] porque queremos que o texto concorde com o que pensamos, com o que cremos. A ideia de que somos "livres-interpretes" é falsa, pois o texto não pode ter uma significação pessoal, como Pedro nos diz: "Sabemos primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação" [2Pe 1.20].
Alguém poderá dizer que o apóstolo se refere apenas às profecias, mas o fato é que as profecias são relatos, revelações de Deus ao homem, o que inclui, ao meu ver, todo o escopo da Bíblia, ainda que particularmente nos atentemos ao seu caráter de prever acontecimentos futuros. Quando a Bíblia diz: "A alma que pecar, essa morrerá" [Ez 18.20], temos um princípio, o de que o pecado levará inevitavelmente à morte, e uma profecia, a de que os pecadores morrerão [numa afirmação para o tempo futuro, para aqueles que ainda viriam, sem se esquecer de que ela já se realizara também no passado]. Então, profecia [lat prophetia] significa igualmente anunciar e interpretar a vontade e os propósitos divinos; profetizar é anunciar o Evangelho, o que todos os cristãos são chamados a fazer, logo, todos somos profetas.
O cuidado e zelo ao nos dirigirmos ao texto bíblico está ligado ao temor de preservá-lo em nossa mente e coração da forma como Deus nos entregou. Como já disse, todos temos acesso à Escritura, mas com a responsabilidade e vigilância para não colocar aquilo que ela não diz, nem tirar o que ela diz. Nós somos os seus guardiões secundários, pois Deus é o seu guardião principal e, por ele, ela se manterá intacta e perfeita em sua missão de nos revelar fiel e verdadeiramente a sua mensagem. O que não nos exime da vigília contínua em resguardá-la inalterada, incorrompida. De forma que a Bíblia é autossuficiente em si mesma, sem depender de nada ou ninguém além do seu autor, o Espírito; e será sempre ele quem guiará os leitores ao correto entendimento e interpretação da verdade. Mas, para isso, é necessário que o leitor seja regenerado, sua mente transformada, pois há uma venda que cega os olhos espirituais do homem natural, e assim a interpretação correta torna-se impossível, e a sua compreensão inatingível, sendo essencial que ela seja retirada, e isso somente acontecerá pela obra e ação direta do Espírito Santo, dando o novo-nascimento, sem o qual ninguém poderá ver o reino dos céus [1Co 2.14; 2Co 3.14-15].
Creio que este ponto esteja bastante claro, e foi afirmado e reafirmado desde a primeira aula: a Bíblia é autointerpretativa, ela se explica a si mesma, e, para tanto, ela deve ser estudada, e nela devemos meditar para que encontremos a resposta para as eventuais dificuldades que examinamos. Mas nada disso será possível ao homem natural, pois tem os olhos cegados para a verdade. Somente o Espírito Santo pode abrir os olhos ao "morto" e trazer-lhe à vida, ao ponto de, somente assim, ele ser capaz de compreender a mensagem divina. o que nos torna ainda mais responsáveis diante de Deus, pelo dever de clamar e suplicar que ele nos dê a capacidade de entendimento constante, a capacidade de, iluminados pelo Espírito, crescer na compreensão da Escritura.
Com isso, o que se quer dizer que nem as ciências humanas, nem a intuição espiritual ou novas profecias, nem a tradição, ou decisões eclesiásticas, podem ser o ponto pelo qual determinado texto venha a ser clarificado e interpretado. Esse é um princípio definido sabiamente pela C.F.B., de maneira que ninguém está autorizado a explicar o sentido de determinada passagem com base em outros fatores que não seja o próprio texto bíblico; de maneira que ela dará um ensino geral e uniforme, não podendo contradizer a si mesma, pois ela é uma unidade harmônica e coesa.
Não estou excluindo absolutamente o conhecimento humano quanto aos métodos de ensino e aprendizado das línguas originais ou de hermenêutica [a palavra origina-se do grego "hermēneuein" que significa interpretar, esclarecer, e traduzir. É o ramo da filosofia que estuda a interpretação de textos, ou melhor, através dela determinado texto é levado à compreensão], que podem auxiliar no entendimento e compreensão do texto bíblico.
A questão então passa a ser: qual a forma correta de interpretação do texto sagrado?
Muitos alegam, como Orígenes, um dos pais da igreja de Alexandria, que antes de trazer um sentido literal para o texto bíblico devemos "espiritualizá-lo", pois este é o seu objetivo primário. Em outras palavras, ele quis dizer que o sentido literal era coisa para neófitos, iniciantes, e que o sentido espiritual ou alegórico era para os maduros na fé[1].
A palavra alegoria origina-se do grego "allegoría", e significa "dizer o outro", que é o mesmo que dar outro sentido ao sentindo literal, dizer algo diferente do sentido literal. Dá-nos a ideia de que a verdade está alegoricamente oculta, e de que entendê-la literalmente, na superfície, seria uma forma "inferior" de se aproximar de Deus. Em outras palavras, o método alegórico afirma não haver o ensino direto na Escritura, mas formas subliminares e subentendidas somente perceptíveis por aqueles que sejam superiores espiritualmente para buscá-las e encontrá-las. O que acontece é a distorção e corrupção da verdade, e uma presunção que torna o interprete em um analfabeto, incapaz de ler no texto a mensagem real e verdadeira de Deus.
Infelizmente este método antigo de interpretação está mais vivo hoje do que esteve à época de Orígines. Muitos pastores e líderes cristãos se espelham nesse ensino para fazerem-se mais espirituais aos olhos do seu rebanho. Com isso eles ganham autoridade e a capacidade de manipular o texto bíblico ao seu bel-prazer, conforme os seus interesses imediatos, revelando o pensamento e a mente do homem ao invés do pensamento e a mente do Autor, o Espírito Santo.
Um mesmo objeto, por exemplo, a água, pode significar coisas diferentes para intérpretes diferentes. O dilúvio, pelo qual o mundo sucumbiu pela água, poderia significar coisas díspares como a destruição do mundo, o julgamento de Deus sobre a humanidade, porque "a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" [Gn 6.5]; ou o batismo regenerador, através do qual a água tem poderes de efetivamente apagar e limpar o homem dos seus pecados. A arca de Noé, em outro exemplo, pode significar dois eventos: para Agostinho [que as vezes tinha rompantes alegoristas] as suas medidas eram idênticas às medidas do corpo humano, simbolizando a Igreja, o Corpo de Cristo. Para Hipólito de Roma, a mesma arca significava o Cristo, o Salvador que haveria de vir.
Há também uma sensível diferença entre as parábolas de Cristo e a alegorização. Uma coisa é o Senhor utilizar-se de analogias e figuras de linguagem para ensinar seus discípulos a verdade. Outra coisa é utilizar-se do método de alegorização para dar um sentido irreal [e mesmo vários sentidos irreais] a tudo que é real no texto. A Bíblia se utiliza de figuras, tipos e alegorias, como maneira de, didaticamente, transmitir e ensinar a verdade, algo real. Vejamos alguns exemplos:
a) Rm 5.14: "No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir" - Adão é um tipo de Jesus, demonstrando que o nosso Senhor e Salvador tem também as características humanas de Adão, a exceção da natureza pecaminosa [Assim como Moisés é tipo do Senhor, como o libertador do povo de Deus];
b) 1Co 10.1-6: "... E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram" - Fatos históricos, acontecimentos, servem-nos de figuras, de representação, exemplos que devemos seguir, e muitos que devemos evitar.
c) Gl 4.21-26: "... O que se entende por alegoria; porque estas são as duas alianças; uma, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar..." - Paulo, inspirado pelo Espírito, através dos personagens históricos, Sara e Hagar, alegoriza as duas alianças.
O fato da Bíblia se utilizar desses elementos com o objetivo de ilustrar algumas verdades, respeitando-se o texto, o contexto e a intenção do autor, não nos dá o direito de considerar que toda a verdade será compreendida a partir da alegorização, no abandono da interpretação literal. Isso seria alterar e corromper o sentido que o autor quis dar ao texto, fazendo-o dizer o que ele não disse. Por isso, há a necessidade de se utilizar sempre na leitura da Escritura o método gramático-histórico, a busca do sentido literal, observando-se as regras gramaticais e o período histórico no qual foi escrito. Em outras palavras, a melhor forma de se ler o texto bíblico é ater-se ao seu sentido simples e evidente, a fim de não se cair na armadilha da alegorização, que não passa de uma forma pretensamente superior e espiritual de interpretação, mas que revela pouco ou nenhuma espiritualidade; revelando não o Espírito da verdade, mas o espírito do erro [1Jo 4.6].
Portanto, quando nos aproximarmos da Escritura devemos fazê-lo em busca da verdade, pois somente ela nos interessa, ou seja, ouvir, compreender a voz de Deus, para assim conhecer a sua vontade, obedecê-lo e servi-lo para a sua honra e glória, e para a nossa edificação e santificação. De forma que não nos interessa conformá-la ao nosso pensamento, mas ter o nosso pensamento conformado a ela, sujeitando-nos ao sábio e perfeito conselho divino.
[2] Resumo da aula realizada na E.B.D. em 05.11.2011
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